Narizes que salvam vidas
- Aug 8, 2016
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Os cães são conhecidos pelo seu apuradíssimo olfato, resultado de uma perfeita combinação entre: a grande área de superfície que o ar inspirado atravessa dentro do seu nariz; os mais de 300 milhões de recetores olfativos que aí possuem; e a concentração de 30% do seu cérebro na interpretação destes estímulos.
A propósito, no livro Inside of a Dog, a autora Alexandra Horowitz surpreende-nos com a seguinte comparação:
Nós [humanos] podemos notar se o nosso café foi adoçado com uma colher de chá de açúcar; um cão pode detetar uma colher de chá de açúcar (…) diluído na água de duas piscinas olímpicas cheias.
É de conhecimento comum que esta capacidade é explorada nos grupos de intervenção cinotécnica das forças de autoridade, sendo exemplos os cães de busca e salvamento e os cães de deteção de vestígios biológicos, de explosivos ou de droga. Mas têm surgido outras aplicações, dignas da nossa surpresa e respeito.
Os cães são capazes de identificar odores (hálito e/ou suor) indicadores de hipoglicémia (diminuição dos valores normais de açúcar no sangue) nos humanos diabéticos, sendo treinados não só para alertar a pessoa nesta situação, mas também para lhe entregar instrumentos ou medicação adequados. De forma semelhante os cães podem alertar as pessoas que sofrem de enxaquecas para a proximidade de uma crise, com até duas horas de antecedência, permitindo que o doente previna os episódios de dor incapacitante.
Existe também evidência científica da capacidade canina para detetar compostos orgânicos voláteis associados a doenças neoplásicas. Neste âmbito, dois estudos, em 2011 (Cornu et al.) e em 2014 (Taverna et al.), revelaram resultados promissores na deteção, por cães farejadores, de cancro da próstata a partir de amostras de urina. O mesmo acontece em relação à deteção de cancro de pulmão a partir do hálito (Ehmann et al. - 2012), bem como de cancro do cólon e do recto com base em amostras de fezes (Sonoda et al. - 2011).
Se a partir da observação das aves os humanos se empenharam em desenvolver artifícios para voar, também destas evidências surgem tecnologias inovadoras. Investigadores de duas universidades de Inglaterra, em conjunto com o Instituto de Urologia de Bristol, desenvolveram um apurado nariz artificial. Trata-se do sensor Odoreader®, que analisa os compostos presentes no gás emitido por amostras de urina aquecidas. O aparelho produz depois um relatório daqueles compostos, cuja interpretação facilita o diagnóstico precoce de cancro da bexiga, importante para o sucesso terapêutico.
Quanto ao treino, enquanto o dos animais das forças de autoridade está simplificado, porque existe fácil acesso à matéria-prima a ser detetada pelos cães (explosivos, droga, etc.), nos restantes exemplos descritos essa tarefa é um maior desafio. A esses pode adicionar-se o exemplo dos cães ao serviço de humanos com epilepsia: embora sem certeza, pensa-se que também aqui o olfato esteja envolvido, mas independentemente do sentido utilizado, a capacidade de um animal detetar e alertar para a iminência de uma convulsão é-lhe inata. Assim, o sucesso do trabalho destes cães depende fortemente da capacidade dos treinadores em reconhecer aqueles comportamentos inatos de alerta, reforça-los e trabalhá-los. Acredito que seja uma missão exigente, mas certamente gratificante!
Cornu J., Cancel-Tassin G., Ondet V., Girardet C., Cussenot O. (2011). Olfactory detection of prostate cancer by dogs sniffing urine: a step forward in early diagnosis. European Urology, 59 (2) Issue 2, 197-201.
Ehmann R., Boedeker E., Friedrich U., Sagert J., Dippon J., Friedel G., Walles T. (2012). Canine scent detection in the diagnosis of lung cancer: revisiting a puzzling phenomenon. European Respiratory Journal, 39, 669-676.
Horowitz, A. (2009). Inside of a Dog – What dogs see, smell and know. (1st ed.). New York: Scribner.
Regado B. (2008). Cães de alerta e doentes com epilepsia. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade da Beira Interior. Covilhã, Portugal.
Sonoda H., Kohnoe S., Yamazato T., … Maehara Y. (2011). Colorectal cancer screening with odour material by canine scent detection. Gut – BMJ Journals, 60, 814-819.
Taverna G., Tidu L., Grizzi F, … Graziotti P. (2014). Olfactory system of highly trained dogs detects prostate cancer in urine samples. The Journal of Urology, 193 (4), 1382-1387.


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