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Violência Doméstica – O barulho silenciado, do outro lado da porta, perto de si.

  • Nov 11, 2016
  • 4 min read

Fonte: Pixabay

"...Será um erro considerar-se que a agressão é pontual..."


Existem temas sempre actuais que necessariamente invadem a sua vida e que o perturbam, independentemente de se cruzarem ou não no seu caminho, de forma íntima, batendo ou não à sua porta. Mas bastará saber da sua existência, para que sejam temas necessariamente obrigatórios, seus, nossos e de todos. Tornou-se Crime Público.


A violência doméstica não é um mito. É uma dura realidade. É completamente transversal, quanto à idade, quanto ao sexo, ao estrato social, à cultura, à orientação sexual… Existe do lado de dentro de uma qualquer porta, muitas vezes, perto de si.


Surge, essencialmente, entre pessoas que vivem juntas e partilham o mesmo espaço. Surge num relacionamento, onde existe uma clara confiança e sentido de expectativa, perante uma pessoa, mas que por fim causa mágoa, uma dor profunda e uma angústia incalculável a quem se torna vítima - Seja mulher ou homem.


Engloba diversos comportamentos, quer sejam maus tratos físicos como psicológicos, incluindo agressão verbal, agressão psicológica, castigo corporal, privação de liberdade, ofensa sexual, entre muitos outros. Será um erro considerar-se que a agressão é pontual. É, sim, continuada no tempo. E quando se verifica uma vez, tenderá a repetir-se vezes sem conta. – Muitas vezes as suas consequências físicas são gravíssimas, podendo mesmo causar a morte.


Os últimos estudos revelam que as pessoas idosas, por serem mais frágeis, dependentes, vulneráveis estão cada vez mais susceptíveis a este tipo de agressão. Mas também as pessoas desempregadas, sem fonte de rendimento, dependentes de parceiros, maridos, namorados. Pessoas pouco ou nada autónomas. Também pessoas com uma personalidade dependente, que ‘gritam’ por atenção e que a encontram no lado mais errado da vida.


A agressão física é a mais falada e a que está mais ‘visível’. Mas muitas vezes a agressão psicológica é bastante mais corrosiva, perigosa e silenciosa. Mas o que é a Violência Psicológica? Caracteriza-se por uma verbalização, postura, atitudes, comportamentos sistemáticos que seguem um padrão muito específico, com um objectivo muito claro: O exercício do controlo total, sobre a vida de determinada pessoa. A submissão de um Ser, considerado pelo agressor como menor. A constante transmissão à vítima, de ter que ser um Ser insignificante. O sublinhar de uma inexistência como Ser Humano. Facilmente manipulável, como um objecto que não sente, que não pensa, não fala, não questiona, não duvida, não reclama, não se relaciona, e de imediato a não tender, tão pouco, a ter força para o querer fazer.


Ser vítima de um crime, seja ele qual for, necessariamente tem consequências. Encontramos muitas consequências, quer sejam físicas quer psicológicas: Perda de energia, dores musculares, arrepios e/ou afrontamentos, problemas digestivos, tensão arterial elevada, desorientação, confusão, sensação de estar a viver um pesadelo, sensação de abandono, sensação de pânico, dificuldade de concentração, pesadelos, tristeza constante, desconfiança, perda de auto-estima, o que tende a passos largos para depressões profundas.


A pergunta que muitas vezes se faz e que muitas pessoas não conseguem compreender: O que leva a uma submissão por parte da vítima? Quais as razões para silenciar e não denunciar?

A fragilidade é tanta que muitas vezes, as vítimas mantêm-se numa relação, estando convictas, de que um dia ‘esta agressão termina’. Estando convictas de que o problema é delas. Acreditando que, por vezes, são elas que provocam porque não fizeram tudo o que era suposto, porque disseram algo que não deviam, porque ‘provocaram’ o agressor, porque, porque, porque… E o agressor vai ficando impune, no meio de uma fragilidade interminável…


Depois, o medo. O receio. A incapacidade para agir sozinho/a. O medo de sair. O medo de abandonar. O medo do abandono. De deixar os filhos. Da atitude e perseguição do agressor ao deparar-se com essa denúncia. A vergonha perante o núcleo mais íntimo (família e amigos), e perante a rede social (os conhecidos, os vizinhos, a sociedade).


Há um impacto psicológico tão grande na vítima, que dá origem à existência de uma defesa psicológica de negação e de silencio, funcionando como estratégias de sobrevivência, que impede essa denúncia. O que dói, o que magoa é ainda tabu. Não falando é como se não existisse. A questão é que existe, e os recursos internos destas vítimas ficam, completamente fragilizados, ao ponto de desaparecerem…


Há um conflito gigantesco entre silenciar e querer gritar esta dor, mas a vulnerabilidade não permite esse grito. E será necessário e urgente que esse grito aconteça, para que exista um auto reconhecimento, por parte da vítima, de tudo o que lhe que está a acontecer, para depois ser possível restruturar-se. E aqui surge a necessidade de apoio: Apoio de Técnicos especializados. Pedidos de ajuda a Instituições, a Associações de Apoio à Vítima, a familiares, a amigos e a procura de acompanhamento psicológico, será essencial.


Pelo silêncio e pela opção de omissão, obter prova do crime de violência doméstica, é extremamente difícil, porque depende essencialmente da denúncia por parte da vítima. Por essa razão, denunciar é fundamental.

A violência doméstica é real. E será tão mais real, quanto mais o olhar for indiferente.

Por detrás de uma porta, o silêncio que ouve, poderá ser do mais corrosivo que existe.


Fontes: APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima | Martinez, P.M; Lucas, T.N.S. (2006) “Violência Domestica contra a mulher e suas consequências psicológicas”- http://newpsi.bvs-psi.org.br | Jornal Público – Entrevista: “Não está nas mãos das vítimas mudar o agressor” - Ana Dias Cordeiro | Maio 2015


Maria Veiga | Psicóloga

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