Gerar vida com consciência e apoio
- Oct 10, 2016
- 4 min read

Nos primórdios de toda a civilização o parto era um evento isolado e solitário como acontece com as outras espécies. Mais tarde e durante muitos séculos o parto passou a ser um evento de cariz social e com apoio por parte de pelo menos uma pessoa. A habilidade de cuidar do próximo, de dar amor e prestar apoio são actos antigos e que provaram ser uma grande influencia positiva e significativa no trabalho de parto, na saúde e na sobrevivência da mãe e do bebé.
Na verdade o nascimento humano requer mais auxílio justamente porque o volume encefálico do bebé é maior em relação à pélvis da mãe.
Antigamente os partos eram exclusivamente assistidos por mulheres, as denominadas parteiras ou “bruxas”, enquanto os homens ficavam à espera do nascimento receosos e pasmados com este fenómeno misterioso.
A partir do século XVII os homens deixaram de ser meros espectadores e passaram a querer intervir no parto humano. O nascimento que era antes guiado pela natureza, pela mulher e considerado um fenómeno misterioso passara a ser guiado pelo patriarcado, pela ciência e pela razão. Estava claramente à vista uma grande mudança no acto de dar à luz. E em boa parte deveu-se aos irmãos Chamberlen criadores do primeiro instrumento de parto – o fórceps.
As mulheres que outrora eram parteiras passaram a ser assistentes passivas e auxiliares dos médicos. A intuição e a experiência passaram a ser substituídas pela ciência e pela razão.
Graças ao avançar da tecnologia muitas mães e muitos bebés puderam ser salvos!
No entanto, a obstetrícia foi-se tornando cada vez mais instrumentalizada e interventiva. E as técnicas que foram criadas para salvar vidas tornaram-se em técnicas e em protocolos rotineiros no acto de parir. A posição supina é a obrigatória ao invés das posições verticalizadas. A analgesia (epidural) é extremamente recomendada tornando-a quase obrigatória. A episiotomia é uma técnica utilizada em 90% dos casos em Portugal sem qualquer necessidade. O rebentar forçado das águas, o uso de drogas, do fórceps e das ventosas são práticas comuns para acelerar o trabalho de parto. A cesariana, uma técnica criada para atender partos complicados, passou a ser em muitos países uma ocorrência normal e muitas vezes previamente marcada sem o bebé estar totalmente pronto e preparado para nascer. O apoio fundamental é muitas vezes trocado por agressividade, troça, falta de paciência e compaixão pelo próximo.
Hoje em dia são, em grande parte, as mulheres que ficam amedrontadas com o mistério do parto. Este fenómeno que era antes encarado como um milagre e um processo conduzido pela mãe natureza é actualmente visto como algo quase patológico que precisa de instrumentos e intervenção obrigatória. As cesarianas têm aumentado significativamente em todo o mundo! Não só por motivos económicos, mas também pelo medo da dor e pelo medo das intervenções obstétricas. No Brasil a taxa de cesarianas já está nos 90%.
Aquilo que era antes um processo natural passou agora a ser um procedimento exclusivamente técnico e muitas vezes cirúrgico!
Que tipo de sociedade estamos nós a parir? Uma sociedade com medo de dar à luz?
Nos últimos anos, tem-se constatado que este procedimento técnico desmedido pode trazer repercussões profundas para a nossa sociedade, cultura e saúde.
A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que estes procedimentos são necessários em apenas 20% da totalidade dos nascimentos.
Em Inglaterra e Alemanha por exemplo o parto domiciliar é regulamentado e é o mais recomendado quando não existe qualquer complicação. Existem várias casas de parto e as parteiras têm todo o apoio para praticar o parto natural.
As pesquisas cada vez mais apontam para a prática do parto natural, uma vez que reduz várias e possíveis complicações e ainda um impacto positivo a nível físico, emocional e psicológico para a mãe e bebé.
É então que o papel da Doula (a “mulher que serve”) se cria e aparece na nossa sociedade actual. Ela vem trazer de volta o acompanhamento fundamental no processo transformador e misterioso que é a gravidez, parto e pós-parto.
A Doula não tem qualquer conhecimento técnico na área da saúde e não pretende de qualquer forma ocupar um cargo médico nem o trabalho da parteira. A Doula existe para prestar apoio físico, psicológico e emocional, cuidar e dar conforto à mulher. Ela recorre à escuta activa e tem por objectico encorajar e disponibilizar informação totalmente baseada em dados científicos.
Uma vez que as consultas e os partos se desenvolvem num contexto técnico e hospitalar o apoio emocional foi-se perdendo, sobretudo no momento do parto onde a ansiedade, medos e traumas transbordam a olhos vivos. A Doula vem justamente preencher esta falha e resgatar toda a prática antiga de apoio à mulher.
Os resultados têm sido absolutamente positivos potenciando uma maior redução nas intervenções médicas encorajando a mulher e a relembrá-la de que o seu corpo está totalmente preparado para parir.
A Doula, disponibilizando informação científica, torna a futura mãe mais informada e empoderada com uma maior capacidade de escolha.
A OMS também incentiva o apoio da Doula. Defende que este acompanhamento acarreta inúmeros benefícios potenciando um trabalho de parto mais curto e com menos intervenções médicas e cirúrgicas.
No entanto, a luta continua! A necessidade de regulamentar o parto domiciliar em Portugal como existe em vários países da Europa do Norte é o próximo passo. Assim a futura mãe poderá ter um trabalho de parto e dar à luz num sítio escolhido por ela, mais familiar, acolhedor e menos instrumentalizado com pessoas que pouco conhece. Desta forma, também as parteiras terão mais apoio por parte do Estado.
O ideal seria mesmo que a ciência e a razão andassem de mãos dadas com a intuição e a experiência! Que não houvesse esta luta entre matriarcado e patriarcado, mas sim a sua união!
Parir é o acontecimento mais antigo do mundo entre todas as raças e todas as espécies. É a criação da vida e da existência! É a comunhão entre o lado feminino e o lado masculino!


Comments